segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Agradeço a todos que vêm acompanhando este blog. Espero que tenham aproveitado!
Encerraremos por ora as publicações, mas continuamos à disposição para revisar seu texto pelo e-mail adm@escrevercerto.com.br.


sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Crônicas - 13.12.13

Fábulas Pornomorfológicas


Certa manhã de janeiro de 2009, na fazenda Dicionário...

— Ei! Cadê meus hifens? — perguntou o bumba meu boi.

— O Novo Acordo Ortográfico mandou recolher tudo... também fiquei sem nada — disse o pé de moleque.

— Fi duma égua! Mas já dou um jeito nisso... — e saiu à cata de pronomes pessoais. Não demorou muito pra se esbarrar com um tezinho:

— Ei, pronominho, vem cá... Tá vendo aquele verbo "darei" ali? Tá ali, só no futuro do presente, te dando mó mole! Tá esperando o quê, tezinho? Vai lá, rapaz, faz mesóclise com ele!

O pronome não pensou duas vezes: partiu pro bote e se enfiou bem no meio do verbo, formando um "dar-te-ei". Era tudo de que bumba meu boi precisava:

— Que tal rolar uma próclise agora? Hummm... Mandou bem, hein, garoto? Ficou ótimo. Vou aproveitar e levar esses hifens, ok? Com a crise da Reforma, tem muita locução carente por aí precisando disso aqui.

E assim o bumba-meu-boi se mandou, vestido e feliz, com sua antiga ortografia.

Moral da história: "Em terra de Reforma Ortográfica, quem tem um hífen é rei".


Autor: Davi Miranda
Publicado em: 15 de outubro de 2013
Acesso em: 9 de dezembro de 2013

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Figuras de linguagem - 12.12.13

Oxímoros


Você sabia que o Chaves (o verdadeiro, amigo do Quico e do Sr. Madruga), quando diz “foi sem querer, querendo”, está usando um oxímoro? O Doutor explica.

A leitora Luciane quer saber “o que é oxímoro na Língua Portuguesa”. Minha cara, o oxímoro não é um fato específico do Português; na verdade, é uma figura da Retórica Clássica que consiste em combinar, numa só expressão, dois termos considerados antagônicos, obtendo-se, com essa combinação inusitada, uma série de efeitos literários e expressivos: um silêncio ensurdecedor, um supérfluo essencial, boatos fidedignos, espontaneidade calculada, mentiras sinceras, crescimento negativo. O nome vem do Grego oxus, “afiado, agudo, penetrante”, mais moros, “tolo, idiota”, e teria sido criado pelos retóricos exatamente para designar essas expressões sutis e irônicas que parecem, à primeira vista, pura bobagem.

Como podes ver pelos exemplos acima, o tipo mais frequente de oxímoro é formado pela união de um substantivo e de um adjetivo; existem, no entanto, formas mais extensas de composição, desde aquele lema dos movimentos de Maio de 68, importado pela nossa Tropicália — “É proibido proibir” —, até a frase imortalizada pelo pitoresco Chaves do seriado infantil mexicano — “Foi sem querer, querendo“. A Literatura tem bons exemplos: lembro o tão citado verso de Fernando Pessoa, “o mito é o nada que é tudo“, ou o terrível oxímoro com que Euclides da Cunha define o sertanejo, “Hércules—Quasímodo“, ou ainda um dos mais famosos sonetos da lírica de Luís de Camões, todo construído sobre oposições desse tipo:

Amor é fogo que arde sem se ver,
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente,
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Vais encontrar exemplos de oxímoros na literatura de todas as línguas, de todas as épocas. Quero ressaltar, entretanto, uma interessante invenção da retórica moderna, recurso muito útil para aqueles que gostam, como eu, da ironia sutil: em vez de usar a figura do oxímoro, eu uso o próprio termo, servindo-me dele para extrair um significado totalmente surpreendente de combinações corriqueiras de palavras. “Inteligência militar” é uma expressão conhecida e usada sem malícia; no entanto, quando Joseph Heller, no seu romance Catch 22, diz que isso é um oxímoro, o efeito crítico é devastador, porque o autor declara simplesmente que, para ele, inteligência e militar são termos contraditórios, que não deveriam andar juntos. Olha só o veneno:

— Fulano de Tal, músico de rock — perdoem o oxímoro! — declarou…
— Ontem discutimos em aula o oxímoro divórcio amigável …
— O título do artigo era um oxímoro moderno: Sexo Seguro.
— Aquele foi um belo exemplo, apesar do oxímoro, de humildade argentina.
— A julgar pelo Brasil, televisão educativa não passa de um oxímoro.

N.B.: A pronúncia é /occímoro/. Embora o Aurélio-XXI (sempre dando para trás, esse enguiço!) registre oximoro (rimando com namoro), Aurélio-vivo (até a 2ª edição), Antenor Nascentes, Celso Pedro Luft e outros bambas preferem a forma proparoxítona; fico com eles.

Autor: Cláudio Moreno
Acesso em: 9 de dezembro de 2013

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Estrangeirismo reverso - 11.12.13

Palavras que o Inglês veio buscar no Português


Para aqueles que se queixam do ingresso de vocábulos estrangeiros em nossa língua, é bom lembrar que, semelhante ao que acontece com as mercadorias e as matérias-primas, exporta quem tem, importa quem precisa. Se o Português hoje é francamente importador, já teve o seu tempo de fornecedor de vocábulos novos para o léxico do Inglês e das demais línguas modernas. Não podemos esquecer que, no séc. XVI, no seu impressionante avanço pela África e pela Ásia, Portugal tornou-se os olhos e os ouvidos de toda a Europa, trazendo do Oriente especiarias, frutas, animais e costumes exóticos, todos eles acompanhados pelas palavras que os denominavam. Foi pela mão portuguesa que entraram nas línguas ocidentais termos como macaco, chimpanzé, manga, banana, mosquito, quimono, mandarim. Com a descoberta e a ocupação do Brasil, os portugueses assimilaram e espalharam no continente europeu os nomes das plantas e animais do novíssimo mundo: não há bom dicionário de Inglês que não inclua piranha, tapioca, caju (cashew, escrevem eles), curare, jaguar, entre muitos termos oriundos de nossas línguas indígenas. Além dessas, algumas palavras realmente portuguesas terminaram sendo incorporadas pelo léxico do Inglês. As mais usadas são:

negro — (igual, com a pronúncia /nigro/) — Infelizmente, Portugal também ficou famoso pelo domínio mundial do tráfico negreiro, e não é de espantar que o termo negro tenha sido adotado pelo inglês para designar especificamente o africano escravizado. Nos anos 60, com a recuperação do orgulho racial nos EUA, o vocábulo negro, considerado pejorativo, foi substituído definitivamente por black, como atestam os movimentos dos Black Panther e do Black Power.

nlbino — (igual, no Inglês) — O termo vem de albo, forma antiga de alvo, sinônimo de “branco” (por isso se fala de “alvejante de roupa”), e refere-se adequadamente à pele leitosa e ao cabelo praticamente branco dos albinos. O vocábulo foi usado por um explorador português do séc. XVII para designar os primeiros negros-aças que ele avistou na África. Depois, generalizou-se para qualquer ser vivo despigmentado, inclusive animais, entre os quais se incluem o elefante branco da Tailândia, a vaca branca da Índia e, possivelmente, a baleia Moby Dick.

cobra — (igual, no Inglês, com o O fechado) — Ao lado do genérico snake, usam cobra para designar aquelas serpentes que têm a capacidade de inflar a pele do pescoço, formando uma espécie de sinistro capuz. Entre elas está a conhecida naja da Índia — a preferida dos encantadores de serpentes — e a mamba da África doSul. Quando os portugueses chegaram à Índia em 1496, deram a este estranho animal o nome de “cobra de capelo” (cobra de capuz); os ingleses importaram o nome, mas reduziram-no para cobra.

casta — (caste) — Casta é o feminino de casto, adjetivo que significa “puro, intacto”; como substantivo, designa uma linhagem vegetal ou animal com origem comum e caracteres semelhantes: “este vinho é feito com uvas das melhores castas”. O termo serviu, portanto, como uma luva para designar os fechados grupos sociais em que se dividia a sociedade da Índia — sistema até então desconhecido pelos portugueses —, no qual um indivíduo fica preso até sua morte na casta em que nasceu, sem que se admita mistura ou contato com os membros das demais castas. Logo o inglês e a maioria das língua europeias adotaram o vocábulo.

tanque — (tank) Quando foi importado pelo Inglês, significava apenas “reservatório”. Durante a 1a. Guerra, contudo, quando os ingleses desenvolviam secretamente os primeiros carros de combate que rodavam sobre esteiras, espalharam o boato de que estavam construindo reservatórios de água motorizados para a campanha na Mesopotâmia. Para despistar a eficiente espionagem alemã, tiveram o cuidado, inclusive, de escrever “tank” nos engradados de madeira que levaram as peças para o solo francês, onde foram montados para entrar em ação. O estratagema produziu dois resultados: o novo veículo pegou os alemães totalmente desprevenidos, e o nome tanque ficou definitivamente consagrado.

marmelada — (marmalade) — Na tradição culinária portuguesa, é o tradicional doce de marmelo (sólido ou em forma de geleia), que acabou sendo suplantado, no Brasil, pela invencível goiabada. O termo foi levado para a Inglaterra, no entanto, para designar o doce feito com a polpa de qualquer fruta, especialmente as cítricas; basta ver que a campeã inglesa de preferência é a orange marmalade, uma “marmelada” de laranja! Só não importaram ainda o sentido figurado que damos ao vocábulo; um inglês não entenderia a frase “a última corrida da Ferrari foi uma vergonhosa marmelada”.

bucaneiro — (buccaneer) — Designava os habitantes das ilhas de Hispaniola e Tortuga que caçavam bois selvagens e defumavam sua carne numa espécie de grelha conhecida em Francês por boucan, que veio do moquém de nossos índios; trocado em miúdos, seria algo assim como um churrasqueiro. Com o tempo, esses assadores encontraram uma atividade mais lucrativa na pirataria, e o nome colou neles. Em 1661, registra-se o seu uso no Inglês no primeiro sentido; em 1690, já aparece para designar os piratas das Antilhas. Este é um caso especial: uma palavra nossa, nativa, produziu uma derivada francesa, que se tornou comum nas Antilhas, ingressando no Inglês, no Espanhol e — lá vamos nós! — no Português moderno.


Autor: Cláudio Moreno
Acesso em: 9 de dezembro de 2013

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Estrangeirismos - 10.12.13

Pedra de craque


Comparada ao Chinês ou ao Hebraico, nossa língua é uma jovem senhora de 900 anos, mas já tem seus hábitos e suas manias. Uma delas é impor o seu próprio sistema ortográfico aos vocábulos estrangeiros que aparecem por aqui — medida das mais saudáveis, como veremos.

Na minha caixa de correspondência (não a virtual, mas a verdadeira, daquelas que têm portinha e tudo), apareceu uma folha de papel dobrada contendo uma pergunta irritada, quase uma reclamação: “Ô, Moreno, que aporrinhação é essa agora? Abro o jornal e só vejo gente discutindo se a pedra fumada é de crack ou de craque! Isso é coisa do Novo Acordo? Para mim tem o dedo desses carinhas que escondem o rosto nas manifestações! Contestam tudo! E daí? Escrito de um jeito ou de outro, esses viciados vão acabar é morrendo na sarjeta…”. Não tinha assinatura, mas o fato de não estar num envelope me faz supor que se trate de algum morador deste prédio — alguém que reúne algum interesse pela nossa língua a uma rabugenta intolerância com seus semelhantes…

A verdade, anônimo vizinho, é que ambas as formas podem ser usadas. Antes de entrar em detalhes, vamos a algumas verdades básicas: dissipada toda aquela fumaceira que a discussão sobre estrangeirismos levantou, o bom senso deixou em pé um princípio com que todos parecem concordar: só devemos buscar uma palavra em outro idioma se ela não estiver à nossa disposição no Português. É uma importação estratégica: se houver similar nacional, não tem sentido algum deixar a forma vernácula mofando na gaveta para trocá-la pela forma estrangeira — a não ser, é claro, por vaidade, futilidade ou simples semostração.

Ora, ao contrário do que muitos pensam, dos vocábulos estrangeiros que andam por aí pouquíssimos podem ser classificados como desnecessários. Acredita no que digo: palavra supérflua não dura muito. Antes da 1ª Grande Guerra, os elegantes brasileiros usavam palavras como adresse (“endereço”), étagères (“prateleiras”), flâner (“passear”); robe de chambre (“roupão”), rendez-vous (“local de encontro”), réclame (“anúncio”), chalet (“casa rústica”), début (“estreia”), enveloppe (“sobrecarta”), toilette (“traje; quarto de vestir”). O que aconteceu com elas, quando submetidas à implacável peneira do tempo? Agora, no início do séc. 21, vemos que várias delas sumiram, enquanto outras — como toalete, envelope e chalé — continuam por aí, muito pimponas. O chambre já não tem a popularidade de antanho, mas respira. Randevu está nas últimas, rebaixado ao último nível moral e social. Début continua sendo usado, mas será eternamente uma estrangeira, tanto na escrita quanto na fala (não é para menos: sua pronúncia exige o temível “U” com biquinho, que pouca gente consegue reproduzir); em compensação, terminou nos dando debutar, um verbo de razoável utilidade, pelo qual lhe somos gratos. Quem sabe como elas estarão no início do séc. 22?

Faço questão de frisar, indignado leitor, que muitas vezes a caça aos vocábulos estrangeiros é motivada por falta de informação (ou cultura) do caçador, que pensa, erroneamente, ter encontrado um sinônimo idêntico no Português. Não faz muito um jornalista vociferava, no rádio: “Parem com essa mania de usar nome importado para fingir que a coisa é fina! Mas quando se ouviu falar em iogurte? Parem com isso! Iogurte é a nossa velha coalhada!” — e dê-lhe ponto de exclamação! Confesso que fiquei impressionado com a veemência de seu discurso; no entanto, como sempre desconfio daquilo que vem gritado, seja na fala ou na escrita, fui consultar um queijeiro amigo, que me aconselhou a não levar a sério o jornalista, já que os dois — o iogurte e a coalhada — são tão parecidos quanto um porco e uma ovelha…

Portanto, quando encontramos uma palavra realmente intraduzível, devemos convidá-la a morar entre nós, deixando assim nosso léxico mais rico. Ao recebê-la, podemos tratá-la de duas maneiras: a mais comum — e mais desejável — consiste em limpá-la das peculiaridades ortográficas da língua de que proveio e adaptá-la ao nosso próprio sistema, mantendo o máximo possível de sua pronúncia original. Foi o que aconteceu com chalé e randevu, nos exemplos acima, ou com nhoque (gnocchi), blecaute (blackout) ou saite (site). Se esta hipótese for inviável (o produto da adaptação pode ficar tão esquisito que iniba sua adoção pelos usuários), ela então entrará na forma com que nasceu, escrita em grifo ou entre aspas: marketing, pizza, software, freezer. Na linguagem esportiva, o inglês crack, significando o jogador de exceção, há muito foi nacionalizado para craque; quando a mesma palavra passou a designar, no Inglês, a nova droga mortífera, é natural que se abrisse aqui também a possibilidade de designá-la por sua versão aportuguesada (o dicionário Aulete já registra esta variante). As duas formas agora vão disputar nossa preferência. No momento, dá crack de vareio; daqui a cem anos, escrevo outra coluna sobre o assunto.


Autor: Cláudio Moreno
Publicado em: 8 de setembro de 2013
Acesso em: 9 de dezembro de 2013